Sunday, May 20, 2018

MADRUGADA DOS MORTOS RELOADED: o texto original de 2004

  • Segue o texto sobre a refilmagem do clássico gore de George Romero.
  • O remake de Madrugada dos mortos marcou a parceria de dois talentos da indústria que hoje se tornaram diretores influentes: Zack Snyder e James Gunn. 
  • O texto abaixo foi resgatado do primeiro endereço deste blog, originalmente publicado em 26 de abril de 2004.
  • O filme, dirigido por Zack Snyder e com roteiro de James Gunn, já ganhou outro texto no blog, publicado em 2017.

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MADRUGADA DOS MORTOS


Os manuais de roteiro ensinam: o roteirista tem dez minutos para fixar o personagem principal, estabelecer as linhas gerais da história e, o mais importante, puxar a plateia para dentro do filme. Está comprovado cientificamente: ao cabo de dez minutos de projeção, o espectador já decidiu se fez ou não um bom investimento ao comprar o ingresso.
Nesse aspecto, “Madrugada dos Mortos”, de Zack Snyder, é um filme exemplar. O começo é trepidante. A heroína: uma enfermeira. A história: desde quando filme de mortos-vivos precisa de uma? Captar a atenção da plateia: a aparente calma da aurora está sob ameaça. Há uma presença estranha na casa da enfermeira e seu companheiro. Ah, sim é a menina da casa ao lado. Em vez de um "Bom dia", que tal uma mordida nas carótidas?
A mulher se tranca no banheiro. A mulher consegue escapar. Está na rua, olha a seu redor. É o fim do mundo como ela o conhece. O caos. O apocalipse. Umas pessoas atacam as outras, alucinadas. Outras estão em estado de choque. A moça pega o carro e foge dali. Mas há algum lugar para ir??
O roteiro foi escrito em cima do filme homônimo de George Romero. A exemplo do original, situa a maior parte da ação no shopping. A reciclagem caprichou no formol ‘intertextual’: citações de “O Iluminado”, “Tubarão” e “Mad Max 2”. Os dias dos zumbis lerdos, em câmera lenta, de George Romero, terminaram. No amanhecer do novo século, os zumbis são velozes, furiosos e vorazes. 



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À esquerda, Zack Snyder. À direita, James Gunn. Dois dos diretores mais bem-sucedidos comercialmente da atualidade.



Seres rastejantes

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Sábado chuvoso e frio no invernal outono do RS. Cenário perfeito para aumentar a cultura trash.

Responda, bem rápido: qual a indústria de cinema no mundo que dá mais liberdade criativa a seus roteiristas e diretores? Se você respondeu Hollywood, acertou.

Há muito tempo os figurões dos estúdios aprenderam que vale a pena investir em diretores que mostram uma "centelha criativa", um algo a mais, um talento que desponta.

Bons diretores e roteiristas começaram com trashs incomensuráveis. Que o digam James Cameron e Peter Jackson, com seus respectiva e inigualavelmente trashs Piranha 2 - Assassinas voadoras (1981) e Trash - Náusea total (1987).

Claro que
Seres rastejantes (Slither, 2006) é um trash diferente do citado hipertrash de Peter Jackson. É um trash hollywoodiano, onde baixos orçamentos comparativamente não são tão baixos e onde se conseguem bons serviços por preços módicos.

Um ator de renome (Michael Rooker), efeitos de primeira qualidade com orçamento relativamente baixo, uns rostinhos bonitos, uma trama com romance, traição, proteína, sumiço de cães e gatos, e, é claro, o principal ingrediente: roteiro e direção de um promissor talento.

Estamos falando de ninguém menos que James Gunn, o atual responsável pelo sucesso da franquia Guardiões da galáxia.

Postas todas essas preliminares, vamos ao que interessa: o filme.
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O roteiro mistura elementos de vários clássicos da ficção e do terror, põe tudo no liquidificador e bingo: temos um trash que, se não tem nada de incrivelmente inovador, ao menos cumpre à risca a sua função social de entreter um pai e seu filho pré-adolescente numa tarde chuvosa de sábado.

A pessoa nota de longe que esse tal de James Gunn tem bala na agulha (sem trocadilho) quando o assunto é fazer uma mixórdia de gêneros: começando com uma ficção do tipo "infecção espacial" à la Invasores de corpos, vai migrando para uma contaminação mais generalizada, ao estilo de uma Invasão zumbi. A propósito, o título do filme em Portugal é:



Consta que James Gunn se inspirou em dois filmes de David Cronenberg da década de 1970 e também um mangá de terror. Mas é claro que tem umas pitadas de Lovecraft e de George Romero. Pela ambientação numa cidadezinha do interior e pela natureza das criaturas, também lembra um pouco um trash tri-legal de 1990 com Kevin Bacon: O ataque dos vermes malditos!

É essa mescla inusitada que sustenta o interesse, além de um bom humor um tanto irresponsável que permeia o filme, mas com um acréscimo importante: uma louvável e irônica crítica aos famigerados caçadores de cervos, raça que, infelizmente, ainda existe não apenas nos EUA, mas também em terras tupiniquins.

Uma coisa fica bem clara é que James Gunn como diretor é um excelente roteirista, ou seja, dá para notar que ele já tinha mais experiência numa das habilidades. Escreveu, por exemplo, o roteiro de Madrugada dos mortos (2004), de Zack Snyder. Em Seres rastejantes, James Gunn participa também como ator, no papel de um professor que conversa com a sua colega professora Starla Grant (Elizabeth Banks) e desperta o ciúme do marido dela.

Diga-se de passagem, o que James Gunn faz em Seres rastejantes é algo bem diferente do que Del Toro fez em A forma da água. Esta é a diferença entre inspiração e influência e plágio velado: as influências e inspirações são utilizadas para influenciar e inspirar, não para copiar personagens principais e dar nova roupagem a um enredo.

A propósito, a defesa dos produtores se pronunciou, e, por meio de uma inteligente combinação de palavras, não negou o plágio, apenas disse que não houve plágio passível de prova ou indenização. Vamos aguardar os acontecimentos e torcer para que tudo não acabe com um "acordo" com cláusula de confidencialidade... Qualquer acordo nesse caso será muitíssimo suspeito. Digno de seres rastejantes.

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Friday, April 20, 2018

Adeus à linguagem 3D

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Assistir ao filme Adeus à linguagem de Jean-Luc Godard é como entrar num museu de arte moderna.

A gente nunca sabe se o artista é um gênio ou um doido, ou simplesmente um enganador.

O quanto há de arte por trás desse estilo "experimental"?

O som entrecortado no começo do filme dá uma sensação inquietante, será que o Blu-ray veio com problema?

Pelo menos o 3-D é forte mesmo.

Não sei que câmeras Godard utilizou, parece que foram câmeras pequenas, sem parafernálias e gruas.

Eis que o resultado é de um 3D de fato, não de um 3D convertido.

Também não sei o que dizer sobre este filme. Não que ele provoque um vazio, um monte de pontos de interrogação; não, apenas, como eu disse, não sei se o Godard está senil ou se cada vez melhor.

Na entrevista que veio como extra, Godard, um senhorzinho muito arguto, porém de fala meio titubeante ou trêmula, tartamudeia respostas a perguntas ininteligíveis.

A entrevista foi feita em francês, mas as legendas em inglês permitiram-me anotar alguns trechos.

Então, o que você ler entre aspas a seguir são palavras de Godard que foram legendadas e agora vertidas livremente ao português.

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SOBRE A HISTÓRIA DO FILME

"A história é simples. Entre os personagens, tem um homem e uma mulher, e, a certa altura, quando eles estão se desentendendo, aparece um cachorro, e o cão restabelece o equilíbrio."

MENÇÃO A HITCHCOCK

"Apliquei a teoria de Hitchcock: para que as pessoas entendam, fale duas vezes. Por isso, são dois casais."

ROTEIRO

"O roteiro não vem antes da filmagem, mas sim após a montagem."

MENSAGEM DO FILME

"A mensagem é a ausência de mensagem."

3D

"O 3D me permite estar nesta área, nesta paisagem."

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O Blu-ray traz também um ensaio sobre o filme, de autoria de David Bordwell. O ensaio é um bom auxílio para tentar entender a arte por trás de Adeus à linguagem.

Bordwell nos informa que o nome do cachorro é Roxy e usa a interessante terminologia Couple 1 e Couple 2 para se referir aos dois casais.

O ensaio é dividido em 3 partes: Desmantelando a cena; Agressão e digressão; Planos e volumes.

Em Planos e volumes, a função e a estética do 3D no filme são esmiuçadas.

É um ensaio bastante útil.

Mas, afinal, que tipo de filme traz junto um ensaio escrito por um intelectual?

Por si só, isso já diz bastante sobre o filme.

Ah, e agora enfim já sei o que dizer sobre o filme!

É o tipo de filme que é preciso ver mais de uma vez para que tudo fique mais claro.

O problema é que ver uma vez já foi difícil.

Então, ver de novo não está exatamente na pauta urgente.

Será que eu fui claro?

Claro, "difícil" não é necessariamente sinônimo de ruim.

Denso, hermético, são aproximações no campo semântico.

Semanticamente, é um filme difícil. 

E se a mensagem é a ausência de mensagem,

que tal uma resenha que é a ausência de resenha?

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Saturday, April 14, 2018

Os amores de uma loira


Este post é dedicado à memória de Milos Forman. Texto inédito no blog,
sobre um filme da "fase tcheca" do diretor, que depois migrou para os EUA.

           
Andula trabalha numa fábrica de roupas e calçados do interior da Tchecoslováquia. A oferta de homens no mercado anda baixa – a proporção é de 16 mulheres por mancebo. A cidade comemora a visita de uma companhia de reservistas com um baile. As adolescentes lamentam a idade e a aparência da mercadoria – mas quem não tem cão, caça com gato. Três reservistas “velhos e fedorentos” oferecem uma garrafa de vinho a Andula e suas amigas. Andula, entretanto, está de olho no carinha mais interessante do pedaço: o jovem pianista. Fim de baile. O pianista atrai Andula a seu quarto, sob o pretexto de “ler sua mão”.

            Os amores de uma loira é um título enganoso. A loira em questão não é promíscua ou devassa. Simplesmente uma adolescente sedenta de paixão. Uma semana depois do encontro, Andula vai de mala e cuia para Praga, atrás do pianista. O interrogatório a que é submetida pela mãe do pianista é hilário.



            Misturando desilusão com risadas em rápidos 85 minutos, Os amores de uma loira concorreu a Melhor Filme Estrangeiro em 1966. Chamou a atenção de Hollywood para o seu diretor. Milos Forman é um bom exemplo de cineasta europeu que se adaptou à indústria sem perder a alma. Continuou fazendo filmes de seu interesse e de grande qualidade.  Levou o Oscar de Melhor Diretor em duas oportunidades: Um estranho no ninho e Amadeus. Realizou o ótimo O mundo de Andy, com Jim Carrey. Para o cinema não se perder como arte necessita de cineastas íntegros como Milos Forman.

            Alguém aí pode se perguntar: por que se importar com filmes tchecos preto & branco da década de sessenta?  Qual o propósito de assistir e, pior, resenhar um filme "velho"? Demonstrar cultura, ser diferente?

            A resposta, meu amigo, o vento está soprando. Hoje, o cinema é consumido quase completamente na sala de projeção. Pouco ou nada do que se vê sobra para comentar ou debater.
            Cineastas como Milos Forman desconstroem uma frase que já esteve em voga: "É um bom entretenimento se você desligar o cérebro”. Os filmes de Forman entretêm e ao mesmo tempo deixam o cérebro ainda mais ligado. E outra maneira de manter o “cérebro sempre ligado” é conhecer um pouco da história do cinema.



Sunday, April 01, 2018

THE BAND OF HOLY JOY

Este é o segundo de uma série de posts com textos dos fanzines Wall of Sound e Planet of Sound.

Os textos eram produzidos, enviados via correio, depois datilografados e montados na cópia máster. Em seguida, cópias eram feitas com xerox.

Esta é capa do Wall of Sound #1, no qual foram publicados os textos do Throwing Muses e também o reproduzido abaixo, sobre a Band of Holy Joy.





The Band of Holy Joy continua ativa, mais informações no site oficial da banda. As faixas do inesquecível álbum manic, magic, majestic hoje podem ser compradas digitalmente no site Bandcamp.









ESTA PÁGINA FOI ESCANEADA DO 1º NÚMERO DO ZINE
WALL OF SOUND,
EDITORA-CHEFE: JUSSARA MARIA ROCHA DAS NEVES

Thursday, March 29, 2018

A FORMA DA ÁGUA NÃO PASSOU NO TESTE ANTIPLÁGIO





ESTE POST CONTÉM SPOILERS 

SOBRE O TEXTO DE PAUL ZINDEL,

LET ME HEAR YOU WHISPER.




Del Toro continua negando peremptoriamente qualquer influência do trabalho de Zindel em seu roteiro dito "original". 

Também afirma peremptoriamente nunca ter lido a peça teatral Let Me Hear You Whisper.

Pois se é verdade que ele não tenha lido a peça antes de escrever o roteiro (coisa que eu particularmente não acredito), ele deveria ter a humildade suficiente para ler agora.

Pelo simples fato de que é um texto excelente.


Mais simples, porém mais honesto e contundente que o oscarizadamente confuso e "olha-só-o-quanto-eu-sou-politicamente-correto" A forma da água.

Sim, não resisti. 

Baixei a peça teatral Let Me Hear You Whisper no meu Kindle pela bagatela de R$2,53.

À medida que fui lendo as cenas, fui soltando suspiros, porque a Elisa de Del Toro é tão parecida com a Helen de Kindel.

E a relação entre o golfinho e Helen é muito, mas muuiito parecida com a relação entre Elisa e "a forma disforme".

Senão, vejamos.

Helen é uma moça calada e eficiente, e, em seu cargo de funcionária da limpeza, tem até uma técnica exclusiva para deixar os pisos mais limpos: misturar um pouco de vinagre com o detergente.

Ela é a nova faxineira do laboratório comandado pela Dra. Crocus (aliás, todas as personagens da peça são femininas, à exceção do golfinho, que aparentemente é um macho.)

Ela está sob as ordens de Miss Moray, a supervisora da limpeza de todo o prédio. Também temos Danielle, a porteira tagarela, e a Sra. Fridge, a austera ajudante da Dra. Crocus.

O golfinho não interage com mais ninguém, exceto com Helen.

Quando Helen está sozinha com o golfinho, o mamífero inclusive começa a pronunciar palavras.
Entre outras: primeiro "You", depois "Book" e, no final, "Love".

O golfinho é alimentado por Helen (fatias de presunto).

Helen cria uma profunda afeição pela cobaia de laboratório, como acontece com Elisa e a forma disforme.

Helen tem algumas alucinações e viagens, momentos em que o fantástico predomina, em que ela visualiza a Dra. Crocus falando coisas.

Esse elemento de fantasia está muito presente em A forma da água de Del Toro.

O fato de Elisa ser muda é também curioso.

A peça de Zindel (que teve uma adaptação para a tevê em 1969) gira em torno do experimento da Dra. Crocus que tenta a todo pano fazer o golfinho falar. 

O golfinho não fala na presença das cientistas, só na presença de Helen.

Por quê? - quer saber Helen.

O golfinho responde: "Booook".

Helen pergunta a Danielle sobre algum livro que envolve o experimento, e Danielle mostra o folder que explica as metas bélicas da comunicação com os golfinhos. Usar os golfinhos a favor de coisas malignas para o planeta e para outros povos.

Por isso que o golfinho recusa-se a falar, mesmo sabendo que se não falar será dissecado.

Perto do final da peça, ele pede para que Helen o salve, levando-o para o rio, depois para o mar.

Fala duas palavras:

- Hamper. 

E depois

- Sea.

Será que Helen conseguirá fazer o resgate milagroso de seu amigo golfinho?

Até nisso a peça é superior: o final é mais coerente e lógico.

Enfim, ao concluir a leitura, senti vergonha por Del Toro.

É uma vergonha uma pessoa se inspirar no trabalho de outra e simplesmente negar, fazendo alegações vagas para se defender.

Ele afirma que não leu a peça. O.k. Outros já plagiaram sem ler, também. Lendo apenas a resenha, ou resumo da peça. 

Yann Martel fez uma coisa parecida com o gaúcho Moacyr Scliar.

Martel, ao ser acusado de plágio, primeiro negou, mas depois confessou ter lido uma resenha da noveleta Max e os felinos, do brasileiro que se tornou imortal da ABL.

E digo mais: foi uma pena Scliar não ter buscado compensação financeira. Contentou-se com o reconhecimento público de Martel.

Não é suficiente. Nesse pragmático mundinho em que vivemos, money talks, bullshit walks

Quanto Martel e família lucraram com os direitos autorais do livro As aventuras de Pi e também com a venda dos direitos para a adaptação fílmica?

Será que o autor ou os descendentes do autor que teve sua obra usurpada (ou plagiada, ou escolha o nome que você preferir) não mereceriam uma porcentagem dessa grana preta?

Agora, uma palavra sobre a questão judicial Espólio Zindel x Del Toro e produtores do filme. As alegações dos litigantes podem ser analisadas na íntegra aqui.

Se o juiz deste processo tiver um pingo de sensibilidade literária e se dedicar ao prazer de ler a peça e ao sofrimento de ver o filme, terá que dar ganho de causa ao espólio de Zindel.

E digo mais: a Academia deveria retirar o Oscar de Melhor Filme e dar a estatueta ao segundo colocado da votação.

Como eu, outros cinéfilos também avaliam que, após a vitória no Oscar, Del Toro pode perder nos tribunais.

Para mim, este plágio descarado deveria ter o mesmo efeito que um "doping" tem no mundo esportivo.

Shame on you, Mr. Del Toro.

Devolva o Oscar e pague os direitos autorais. 

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O que diria Paul Zindel sobre essa controvérsia?

Será que absolveria Del Toro? Será que se contentaria com o reconhecimento de uma mera 'inspiração'? Aprovaria a reclamação judicial?


Certo é que o prolífico escritor, cuja filha também é uma talentosa escritora, jamais se aposentou e escreveu até morrer, cumprindo à risca a seguinte resposta que ele deu em uma entrevista:

Do you think you will always write?Yes! Everyone else gets to retire. Writers never retire, because their minds are constantly needing to create fictional worlds in which they can become alive. Writing is a dream; it doesn't stop until death. And even then, maybe it still goes on!


Paul Zindel




Monday, March 26, 2018

O estranho que nós amamos

The Beguiled, o filme de 1971, tinha Clint Eastwood no papel do cabo ianque John McBurney, contracenando com Geraldine Page como Miss Martha, dirigidos por Don Siegel, o especialista em policiais que se tornou conhecido como diretor da franquia Dirty Harry.

The Beguiled, o filme de 2017, tem Colin Farrel no papel do cabo John e Nicole Kidman na pele de Miss Martha, sob o comando de Sofia Coppola, que conquistou o mundo com Lost in Translation.

Os dois baseiam-se no livro A Painted Devil (1966), de Thomas P. Cullinan. A articulista do Huffpost, Jennifer Queen, afirma que o "livro é muito mais feminista do que o remake de Coppola".

Não vou entrar nessa discussão, mesmo porque pode existir uma diferença entre perspectiva feminina e feminista.

Seja como for, O estranho que nós amamos (sim, este é o bizarro título nacional do primeiro e do remake) é uma espécie de A casa das sete mulheres, versão norte-americana.

Três mulheres e quatro meninas se tornam anfitriãs e salvadoras de um cabo inimigo ferido. A história se passa no Sul e o cabo é nortista. Todas as sete acabam se encantando pelo sedutor jovem (daí o termo beguile, que significa encantar, seduzir). O próprio rapaz também fica meio perdido, sem saber direito a quem direcionar o seu interesse. As três adultas entram em competição mais acirrada: Miss Martha (Nicole Kidman), Edwina (Kirsten Dunst) e Alicia (Elle Fanning). As idades delas não são mencionadas, mas calculo que sejam 50, 35 e 19. 



Como vai acabar esta história?

O que vai acontecer com esses personagens quando o ferimento do cabo John estiver curado e ele estiver prestes a ir embora?

Nesta pérola de humor negro que revela o melhor e o pior do ser humano, Sofia Coppola mostra que continua construindo uma filmografia coerente e de "grife". 



Sunday, March 25, 2018

THROWING MUSES



Adolescente enviei uma carta à seção do leitor da Som Três. "Compro letras do The Cure." Incrivelmente recebi uma resposta de uma fã carioca do The Cure, e aquilo foi o começo de uma correspondência que resultou, entre outras coisas, em ser apresentado ao maravilhoso mundo dos fanzines.

Apaixonados por escrever, apaixonados por rock, jovens uniam as duas paixões em publicações underground, como o Wall of Sound e o Planet of Sound, que circulavam artesanalmente país afora.

Em uma série de posts que começa hoje, vou resgatar os textos que escrevi para esses fanzines.

Neles, os leitores deste blog conhecerão mais uma faceta minha.

O Henrique Guerra fã de rock alternativo, talvez alternativo até demais. De algumas dessas bandas vocês talvez jamais ouviram falar.

Entre no YouTube, pesquise e se delicie com essas imortais bandas do final dos 80, começo dos 90.







THROWING MUSES


No ano passado, benfazejas correntes oceânicas trouxeram à nossa costa um peixe jamais visto no meio tupiniquim. Quem tomava contato com a referida criatura ficava literalmente atônito pela expressão de paranoica          angústia  em seu olhar e, principalmente, pela incrível e contagiante energia que fluía de sua bizarra tez.


As 'correntes oceânicas’ de que   falo são o Es túdio   Eldorado  e o selo Stilleto, por lançarem a coletânea da 4AD "LONELY IS AN EYESORE" , e o  peixe é ele próprio: “FISH”, a estraçalhante faixa do THROWING MUSES, de cuja letra  foi extraído o título da coletânea.


Metáforas infames à parte, e com o lançamento deHUNKPAPA”, seu ·mais recente trabalho, virá bem a calhar uma  rápida conversa sobre  esta  brilhante banda.

Foi formada em Boston por Kristin Hersh, uma loira já mamãe, responsável pela  maioria das  composições, o peculiar vocal principal uma  das guitarras; Tanya Donelly, também loira, guitarrista, vocalista e compositora; a mulata afro-americana Leslie Langston, que    manuseia        sua bass guitar de maneira exemplar; e, por fim, David Narcizo, um algo mais que competente baterista, cuja experiência na "cozinha" vem da adolescência  quando era auxiliar numa padaria.

Estrearam em  disco em  86  e, desde então, vêm construindo uma sólida carreira, sempre calcada em um rock básico, de sonoridade simples, porém vibrante,  costurada por letras carregadas das  múltiplas neuroses da nossa época.

Seguindo o primeiro LP, homônimo, o THROWING MUSES lançou: CHAIN  CHANGED   (EP   -  1987), THE  FAT   SKIER (EP -1987), HOUSE TORNADO (1988) e HUNKPAPA (1989).

Levando o nome da divisão dos Índios Sioux   liderada por Touro Sentado,  HUNKPAPA"  tem algumas    canções dispensáveis, como "TAKE", mas que não comprometem a força do conjunto. Os  destaques  vão para  a  desconcertante "BEA", a batida cativante de "I’M ALIVE”  e a alucinada "MANIA".  Sobre  esta  última, fico a   imaginar o que  o  sábio chefe indígena          faria   ao     ouvi-la. Uma  coisa  é certa: sentado, ele não ficaria.


Henrique Guerra























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