Tuesday, March 21, 2017

Whiplash

Certos diretores passam uma vida inteira construindo uma filmografia brilhante e por uma série de fatores acabam sem levar um Oscar de Melhor Diretor para casa.
É o caso, por exemplo (e por enquanto), de David Lynch, Ridley Scott e Peter Weir.
Pois este ano um cara que mal saiu dos cueiros conquistou a tão cobiçada estatueta na categoria de Melhor Diretor.
Estou falando de Damien Chazelle, que em La La Land chegou apenas ao segundo longa-metragem como diretor.
O primeiro foi Whiplash, que eu não tinha visto na época de seu lançamento.
Agora inevitavelmente tive de assistir.
E preciso confessar uma coisa: o tal do Damien realmente sabe como terminar um filme.
O final de Whiplash é algo fenomenal.
Escolha qualquer sinônimo de ápice.
Auge.
Êxtase.
Apogeu.
Zênite.
Clímax.
Pináculo.



 
Tudo isso e mais um pouco é o que acontece no final de Whiplash.
É isso, afinal de contas, que o cinéfilo quer: ser surpreendido, ser estimulado a discutir uma cena, ser obrigado a prolongar a experiência.
Para assistir a este filme eu tive a companhia de meu filho de 9 anos, que não conseguiu desgrudar os olhos da tela.
A temática não era exatamente infantil, mas acho que ele já na pré-adolescência conseguiu se identificar um pouco com o protagonista Andrew Neiman, um cara que persegue o sonho de se tornar um baterista profissional e, para isso, estuda no mais conceituado conservatório do país.
O meu filho percebeu que o pai dele não é tão rígido quanto ele pensa.

Pelo menos, não tão rígido quanto o professor Terence Fletcher, interpretado por J. K. Simmons, no papel que lhe deu, merecidamente, o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.
O próprio Simmons já havia interpretado o mesmo papel em Whiplash, o curta-metragem premiado em Sundance em 2013. Basicamente o curta é a cena da primeira sessão de Miles com a banda de estúdio, na qual o professor mostra por que desperta um misto de respeito e temor entre os alunos.
Já o ator que faz o baterista no curta não é o mesmo no longa.
O protagonista de Whiplash, versão longa-metragem, é Miles Teller, excelente ator da nova geração, mas que, às vezes, por conta das cicatrizes no rosto e no pescoço, perde alguns papéis, como ele explica numa entrevista.
Os extras também trazem depoimentos de bateristas de várias bandas contando os percalços, a trajetória de dúvidas, o “fazer por merecer” até chegar ao profissionalismo.
O que nos leva ao título do filme. O que significa Whiplash?
Claro, é o nome da música composta por Hank Levy (e gravada por Don Ellis em 1973) que a banda do conservatório tem de ensaiar para a competição.
A palavra tem três acepções,
escolha a que você prefere. Eu diria que todas têm a ver com o filme e com a música.
A propósito: o filme recebeu algumas críticas por “não ter mostrado o jazz de modo certo”, mas acho que esse tipo de crítica é coisa de quem entende muito de jazz, o que absolutamente não é o meu caso.




Na realidade, o filme não é sobre jazz em si. Também não é apenas sobre “abuso de poder”. O escopo é bem mais abrangente.
Com Whiplash, Chazelle realizou um excelente filme sobre relações humanas e pavimentou o caminho para já no segundo longa receber a láurea mais cobiçada do cinema.
A sorte favorece os preparados.

Chazelle, segundo consta, sofreu nas mãos de um exigente professor de bateria.
Waaal, ele soube muito bem “fazer do limão uma limonada”.
O acridoce Whiplash é saboroso e refrescante como a melhor das limonadas.


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