Wednesday, February 10, 2010

Nine

Por que será que as "novas gerações" "não gostam de musicais"? Esse parece ser um consenso, ou um lugar-comum, ou um fato inegável, como queiram. A minha resposta é que não se fazem mais musicais como antigamente. Um filme não é bom ou ruim por ser "musical" ou não. Apesar do elenco fenomenal e da superprodução, Nine deixa a desejar. As músicas não empolgam e a história em si é um arremedo de 8 1/2 (1963). O problema é que Rob Marshall está longe de ser Fellini, embora talvez ele não considere isso.
O "plot" pode ser resumido assim: 'A film director, suffering from a lack of creative inspiration, retreats into a world of fantasies and remembrances of the women in his past and present.'
Pois esse é o resumo do site Yahoo Movies para 8 1/2 de Fellini.
A homenagem explícita aos estúdios e diretores italianos é, vamos dizer, o ponto forte deste filme, que se pretende uma análise sobre o fazer do cinema. Pergunto-me se Rob Marshall leu o livro Fazer um filme de Fellini, e se é que leu, se ele entendeu direito. Em resumo, Rob Marshall continua a fazer musicais que não convencem e a contribuir para a atual má fama dos musicais.
O fabuloso elenco inclui Daniel Day-Lewis (Guido Contini), Marion Cotillard (Louisa, a esposa de Guido), Penelope Cruz (Carla, a amante de Guido), Nicole Kidman (Claudia, a musa de Guido), Judi Dench (Liliane, a figurinista de Guido), Kate Hudson (a repórter tiete de Guido), Sophia Loren (a mãe de Guido) e Stacy Ferguson (a musa de Guido menino).

Tuesday, February 09, 2010

Tommy & Tuppence: sempre aventureiros

O universo de Tommy e Tuppence envolve espionagem, contraespionagem, mensagens cifradas, segredos de Estado, fugas, perseguições, reviravoltas, tiros, socos e até cabeçadas. Tommy, sempre com os pés no chão; Tuppence, intuição pura. Um casal que se ama e se alfineta com intensidade. Ao criar a dupla, Agatha Christie surpreendeu a Bodley Head (editora do livro de estreia da autora, O misterioso caso de Styles), que esperava novo whodunnit. Em vez disso, Agatha entregou um thriller insuperável.

O inimigo secreto (The secret adversary, 1922), primeiro livro com Tommy e Tuppence e segundo de Agatha, tem como dedicatória: “A todos os que levam uma vida monótona, com votos de que experimentem em segunda mão os encantos e os perigos da aventura”. Ao cabo da Primeira Guerra, Tommy e Tuppence precisam encontrar Jane Finn, que antes de escapar de um naufrágio recebe importantes documentos de um agente secreto.

Sócios no crime (Partners in crime,1929) é uma coletânea de contos que se interconectam. A segunda aventura dos Beresford inicia com Tuppence ansiosa por peripécias. Então Tommy recebe a missão oficial de cuidar de uma agência de detetives. Detalhe: em cada caso deslindado, Agatha homenageia (ou satiriza) um detetive da ficção policial (entre eles, o Padre Brown e Sherlock Holmes). Inclusive, numa das histórias, Tommy e Tuppence encarnam Poirot e Hastings para enfrentar ninguém menos que o Número 16 – brincadeira alusiva ao Número 4, vilão de Os Quatro Grandes.

Em M ou N? (N or M?, 1941), sua terceira aventura, T & T voltam à ativa em plena Segunda Guerra, quando agentes infiltrados (os “quinta-colunas”) no seio da comunidade britânica auxiliam os nazistas a realizar seus intentos. A ação se passa na pensão Sans Souci, pacato estabelecimento no litoral, onde podem estar hospedados M ou N, agentes nazistas da confiança de Hitler. A única informação de que os Beresford dispõem é que M é mulher e N é homem. Mistura perfeita de adrenalina e suspense.

By the pricking of my thumbs (1968), é uma citação da peça Macbeth (da fala de uma bruxa). No Brasil, ganhou o título Um pressentimento funesto. Em sua quarta aventura, Tommy e Tuppence vão visitar a tia Ada, que mora num asilo. Tuppence conversa com a sra. Lancaster, que olha para a lareira e comenta: “A coitadinha era sua filha?”. A sra. Lancaster é retirada do asilo de modo tempestuoso, deixando como única pista o quadro de uma bucólica residência. Tuppence decide investigar o paradeiro da sra. Lancaster e o sinistro mistério por trás da “criança morta na lareira”.

Publicada em 1973, a quinta aventura dos Beresford, Portal do destino (Postern of fate), é a derradeira obra composta por Agatha. Depois ainda lançou dois romances escritos na década de 1940: Cai o Pano e Um crime adormecido (o último caso de Poirot e de Miss Marple). Portal do destino narra o mergulho no passado feito pelos Beresford ao encontrarem nas páginas de um livro no sótão da nova casa a mensagem: “Mary Jordan não morreu de morte natural”. Ladeados pelo cãozinho Hannibal, os Beresford voltam à ativa para desvendar o mistério. Uma curiosidade: Tuppence encontra na casa itens citados na autobiografia de Agatha (KK, Matilde e Truelove). Como em outras obras do fim de carreira de Agatha, Portal do destino foi gravado no ditafone e depois transcrito.

Em todas as cinco aventuras, o casal conta com a fiel colaboração do escudeiro Albert. Diálogos espirituosos, gosto pelo perigo e inesgotável juventude garantem aos Beresford lugar especial na galeria de personagens de Agatha Christie. Que teve um pressentimento nada funesto ao escrever em 1922 numa carta para sua mãe: “Não se preocupe com dinheiro. Algo me diz que a dupla Tommy e Tuppence será um sucesso."

Saturday, February 06, 2010

The hurt locker (Guerra ao terror)


Acompanho a carreira da cineasta Kathryn Bigelow desde o acachapante Near dark (Quando chega a escuridão, 1987), crônica de um grupo de vampiros modernos, em que o sumido Bill Paxton sobe no balcão de um bar e corta a jugular do bartender com a espora, pega o sangue num copo e bebe. A filmografia de Bigelow abarca filmes estranhos de títulos enigmáticos, invariavelmente pensados em detalhe e filmados com apuro técnico e olho clínico. Inclui Jogo perverso (Blue Steel, 1990), Caçadores de emoção (Point Break, 1991) e Estranhos prazeres (Strange Days, 1995). Antes de The Hurt Locker (2009) filmara K-9- The Widowmaker em 2002.
A expressão The Hurt Locker significa uma situação de dor excruciante e inescapável. Essa é a condição em que se encontram alguns militares de elite no 'front' do Iraque, os que precisam ir às ruas atender as ocorrências diárias. Mais particularmente, a unidade de desarmamento de bombas, composta por dois sargentos e um soldado especialista. Um dos sargentos, o líder da unidade, às vezes precisa trajar um uniforme especial e se aproximar do local. O outro sargento e o soldado especialista cuidam da segurança do líder. As situações retratadas no filme representam uma amostra das experiências do ex-jornalista da Playboy Mark Boal, que acompanhou o trabalho dos soldados norte-americanos no Iraque.
O filme não tem na realidade uma "história": é mais uma colcha de retalhos de vários episódios relevantes, retratados como se tivessem acontecidos com as mesmas pessoas. A personagem mais em foco é o sargento William James (Jeremy Renner), destemido sargento que sabe na ponta da língua quantas bombas já desarmou e guarda pedaços dos sistemas de detonação delas embaixo da cama. Obcecado por desempenhar com eficiência suas missões, ignora o medo e transforma situações de perigo numa espécie de vício doentio. Completam a unidade o sargento J. T. Sanborn (Anthony Mackie) e o especialista Owen Eldridge (Brian Geraghty).

The hurt locker é um filme que vale a pena ser visto, independente da mancada dos distribuidores no Brasil terem lançado o filme em dvd antes de no cinema e independente de ter recebido várias indicações ao Oscar. Vale a pena porque os trabalhos de Bigelow em geral são intrigantes e plenos de suspense, e The hurt locker não é uma exceção em sua filmografia.

Friday, February 05, 2010

The Cranberries em Porto Alegre


O show dos Cranberries em Forno Alegre, realizado no Pepsi on Furnace na quarta-feira dia 03/02, teve alta temperatura em todas as possíveis e imagináveis acepções do termo.

O ambiente (uma fábrica antiga com efeito estufa) fumegava com um bafo fervente depois de um tórrido dia de um sol senegalês de 40º C. No ambiente opressivo e estorricante os fãs suavam parados à espera do início do show. A banda Garota Verde esforçava-se para provocar alguns tímidos aplausos, mas o público só sentia mesmo era o suor escorrendo e a vontade de ver o Cranberries subir ao palco.



E às dez em ponto os primeiros acordes irlandeses soaram e as sublimes cordas vocais de Dolores O’Riordan entraram em ação. O público delirou desde o começo do show e se entregou numa troca de energia fascinante. Contagiado pelo bem dosado setlist, que intercalava rocks na veia e baladas oníricas, o público sublimou o calor infernal e se concentrou no prazer de estar ali a despeito de toda a displicência dos "organizadores" com o conforto térmico do público e da banda.
A própria Dolores comentou que aquele era o lugar mais abafado que já havia tocado em toda a sua vida e elogiou a resistência e fidelidade do público: “You’re an AMAZING audience!”

Movido por um elogio desses e embriagado por uma performance irretocável, bem além do apenas profissional, o público retribuiu à altura, entoando as letras a plenos pulmões. O setlist incluiu canções dos álbuns solo de Dolores, como as ótimas Ordinary Day e The Journey.

Durante todo o tempo o público se perguntava: quando ela vai tirar aquele casaquinho branco? Pois ela cantou praticamente todo o show com ele, só o retirando antes de Zombie, um dos pontos mais ferventes do show. Foi a última antes do bis.

The Cranberries mostraram que têm o verdadeiro espírito rock’n’roll nas veias, cumprindo o mesmo setlist dos shows do centro do país e no final Dolores jogou o balde de gelo derretido em cima do público e derramou água nos cabelos curtos e morenos.

De todas as coisas inesquecíveis deste show memorável, sobressai-se a contradição fisiológica e a esquisita experiência sensorial imposta pelos Cranberries: mesmo na fornalha do Pepsi on Furnace, canções como Linger, When you’re gone e Ode to my family tiveram o poder de deixar o público arrepiado de emoção.














Set list:

How
Animal Instinct
Linger
Ordinary Day
Wanted
You & Me
Dreaming My Dreams
When You're Gone
Daffodil Lament
I Can't Be With You
Pretty
Ode to My Family
Free to Decide
Waltzing Back
Switch Off the Moment
Salvation
Ridiculous Thoughts
Zombie
BIS:
Empty
The Journey
Promises
Dreams

Crédito das fotos:
Pepsi on stage==> sem crédito.
Show ==> Leandro Cabral (centro e esquerda), Tadeu Vilani (direita).