Sunday, October 15, 2006

Wood & Stock: sexo, orégano e rock'n roll


Após o falecimento de seu pai, Stock vai passar uns dias na casa do velho amigo Wood. Rê Bordosa, insatisfeita com a rotina de se embebedar, dar e acordar em local desconhecido, está entre o suicídio e o começo de uma terapia. Lady Jane, a mulher de Wood, chuta o balde e vai buscar conforto espiritual numa comunidade religiosa alternativa. Para pagar as contas, Wood & Stock resolvem ressuscitar uma antiga banda de rock'n roll e participar de um concurso. Overall, o filho de Wood e Lady Jane, tranca-se no quarto - o único aposento habitável da casa, palco dos ensaios do Chiqueiro Elétrico - e pensa em fugir para manter a sanidade. O traço divertido do desenhista e diretor Otto Guerra, do longa Rock & Hudson, injeta vida aos personagens de Angeli. O roteiro hilário é de Rodrigo John. Na dublagem, nomes conhecidos: Zé Vitor Castiel é Wood e Rita Lee é Rê Bordosa e Lady Jane. A trilha sonora destaca Lugar do Caralho e outras músicas de Júpiter Maçã. Um filme autêntico, que entrega em boas doses o que promete no título.

Dália Negra


Brian De Palma, o diretor de ‘Fêmea Fatal’, filma o roteiro baseado no livro The Black Dahlia (1987), de James Ellroy (nascido em 1948), inspirado no assassinato de Elizabeth Short, acontecido em Los Angeles, em 1947. Os jornais da época contam que a moça de 22 anos, depois de passar uma semana desaparecida, foi encontrada morta num terreno baldio, com o corpo cortado ao meio na altura da cintura e o rosto mutilado. Depois de muitas investigações, a polícia de Los Angeles listou vários suspeitos, mas não deu solução ao crime. Ellroy (que teve a mãe assassinada em circunstâncias similares) utilizou o assassinato da ‘Dália Negra’– para uns, o nome pelo qual a moça morta era conhecida no submundo, para outros, uma invenção dos jornalistas da época – como premissa para criar tramas e personagens densas.
Buckie (Josh Hartnett) e Lee (Aaron Eckhart), ex-pugilistas que embrenharam na carreira policial, passam a investigar o assassinato de Elizabeth. Antigos rivais no boxe, agora os dois formam uma parceria no combate ao crime. Nas horas vagas, Buckie freqüenta a casa dos Lee, e é secretamente apaixonado por Kay (Scarlett Johansson), a mulher do colega. Durante a investigação, torna-se obcecado pela obscura personalidade da Dália Negra e envolve-se sexualmente com uma sósia da vítima (Hilary Swank).
Quem acompanha a carreira de Brian De Palma sabe que seus filmes oscilam entre sucessos ou fracassos ‘comerciais’ e – respectivamente ou não – sucessos ou fracassos ‘artísticos’. Dália Negra foi espinafrado pela crítica e após 4 semanas em cartaz rendeu apenas metade do custo de produção (50 milhões de dólares). Além de desagradar críticos e produtores, De Palma aborreceu também os fãs de Ellroy, pelas liberdades tomadas em relação ao livro. E quanto aos cinéfilos?
Em primeiro lugar, é de se pensar se existe, a priori, a categoria ‘cinéfilo’. Afinal, cinéfilos são excêntricos, iconoclastas, exigentes, críticos, contraditórios, apaixonados – e não se submetem a generalizações. Podem esperar ansiosos novos filmes dos diretores preferidos, mas se lhes aprouver não perdem a chance de desdenhá-los. Sob esse prisma, o próprio nome deste blog está viciado na origem. Deveria ser ‘olhar de um cinéfilo’. Não existe olhar cinéfilo. Cada cinéfilo tem seu olhar. Posto isso, Dália Negra, na filmografia DePalmiana, está mais para ‘Síndrome de Caim’ do que para ‘Os Intocáveis’. Mas sempre é uma experiência palpitante ir ao cinema para assistir o novo filme de um diretor preferido.

Monday, October 09, 2006

Serpentes a bordo


Diretor de segunda unidade de Matrix Reloaded, Harry Potter e a Pedra Filosofal e Mestre dos Mares, David Richard Ellis começou na indústria cinematográfica há 30 anos como dublê. Em 2003, aventurou-se a assinar Premonição 2. Acostumado a fazer seu trabalho competente sem receber muito crédito, Ellis parece ter tomado gosto por receber o ‘mérito autoral’. Em 2004 voltou à carga com Celular. Para ‘sedimentar’ a carreira de diretor especializado em filmes de suspense e ação, Ellis lançou em 2006 sua pequena obra-prima: Snakes on a plane.
Sean Jones (Nathan Phillips), motoqueiro/surfista do Havaí, testemunha um crime perpetrado por um facínora líder de uma organização criminosa, e o agente Neville Flynn (Samuel L. Jackson), do FBI, passa a protegê-lo. Sean é convencido a depor contra o bandido e um esquema de segurança é montado para o seu traslado de Honolulu a Los Angeles. O que o FBI não esperava, nem a bela aeromoça Claire Miller (Juliana Margullies), nem nenhum dos excêntricos passageiros, que incluem um cantor famoso e seus dois guarda-costas apalermados, um homem com fobia de avião, uma mulher e o filho pequeno, uma patricinha e seu pincher, um homem que não tolera crianças nem cães etc., é que no bagageiro do avião fossem embarcadas centenas de cobras perigosas, das mais variadas espécies e origens. Najas, jararacas, corais, cascavéis, víboras e até uma jibóia (ou seria uma sucuri?), todas borrifadas com um intenso feromônio para deixar os répteis agressivos. Sem dúvida, uma idéia estapafúrdia, quase louca (não é à toa que um dos 6 roteiristas chama-se David Loucka), mas que rendeu um filme com coerência e verossimilhança internas.
Para quem não estudou teoria literária: a verossimilhança interna é um mecanismo criado dentro de uma obra de ficção para que o leitor/espectador acredite naquele universo ficcional. Um exemplo é o clássico “A revolução dos bichos”, de George Orwell, em que porcos, cavalos, cabras e burros pensam, falam e se desvirtuam como seres humanos. No caso de ‘Snakes on a plane’, o contrato feito com o espectador é o seguinte: vamos combinar que por uma hora e meia a palavra verossimilhança não existe mais no dicionário, ou fora dele. Assim você vai poder apreciar sua pipoca e levar alguns sustos e dar umas boas gargalhadas. É evidente que quem teve a coragem e o ânimo de ir ao Cine Vitória no sábado à noite para ver Serpentes a bordo concordou com os termos do contrato. E a surpresa: nesse contrato não havia cláusulas com letrinhas pequenas para enganar o consumidor.
Sobre as ‘estrelas’ do filme: apenas 1/3 delas são reais, conta Jules Sylvester, o dono da Reptile Rentals, empresa iniciada em 1977 para abastecer de cobras o mercado audiovisual. As demais cobras são animatrônicas ou geradas por computador. Sylvester forneceu 450 cobras para o filme, entre “corn snakes, rattlesnakes, king snakes, milk snakes, a couple of mangrove snakes”, e uma cobra albina. Em nenhum momento do filme o número de cobras no set ultrapassou 60, pois elas precisavam ser substituídas para descansar após 15 ou 20 minutos de filmagem. Segundo o empresário coruja, o maior problema foi fazer suas cobras parecerem assustadoras, e a prioridade ao longo das filmagens foi ‘manter a segurança das cobras.’