Monday, July 31, 2017

Dunkirk

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Dunkirk é um radical exercício de estética com elevados anseios artísticos. O conceituado diretor Christopher Nolan mira indicações a Oscar e, como todo bom cineasta, pretende surpreender e colher elogios pela ousadia e pelo talento. Tem sido assim desde o começo de sua carreira. Nolan tornou-se conhecido com o incensado Amnésia, cujo roteiro nada tinha de especial, apenas a montagem do filme tinha sido feita de trás para frente. Isso confundiu muita gente que jura até hoje que Nolan é um gênio.
Eis que a esta altura da carreira, após o esplendor cerebral de Interestelar, é possível constatar que Nolan realmente amadureceu em seu ofício.
Porém, seus principais defeitos continuam ali, escancarados. 
Realmente parece difícil fazer um filme simples, com personagens desenvolvidos e uma história bem amarrada, contada do início ao fim. O ponto de vista tem que ser o de um soldado sem nome querendo escapar com vida de uma arapuca chamada Dunquerque, tem que ser uma sucessão infindável de situações limite, um tal de sai-de-barco-entra-em-barco, do tipo de "tirar o fôlego".
Sim, o filme é eficiente em demonstrar o medo de um soldado durante um bombardeio na praia aberta ou no molhe abarrotado. Parece que o foco de Dunkirk é a angústia das tropas encurraladas querendo escapar. Do ponto de vista histórico, são pouquíssimas as pretensões de Nolan. Em outras palavras: ninguém ficará sabendo nada mais detalhado sobre a retirada, sobre a estratégia (ou falta dela), sobre as questões ligadas à colaboração entre exércitos francês e inglês. É tudo centrado na (pseudo)ação.

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Que Nolan é um cineasta estudioso, isso ninguém pode negar. Ele realiza cenas vertiginosas nos combates entre os caças britânicos (Spitfire) e os alemães (Heinkel), reverenciando respeitosamente Wings (1927), o primeiro a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Embora belíssimas, estonteantes e supereficazes no IMAX 2-D, as cenas aéreas de Dunkirk não têm nada de superior nem de original em comparação com as do filme de William Wellman.
Curiosamente, na curadoria de um ciclo dos filmes que o teriam influenciado na realização de Dunkirk, Nolan cita, entre outros filmes, Alien, O salário do medo, A filha de RyanSem novidades no front, mas não menciona Wings.

AVISO DE PSEUDOSSPOILER
A PESSOAS ALTAMENTE SPOILERSSENSITIVAS:
SE AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME, INTERROMPA A LEITURA AQUI.

Pernóstico, pretensioso? Use o adjetivo que você quiser. Mas por que, afinal, aquelas legendas "enigmáticas" no filme? Tudo para que no final as três histórias se entrelacem e tudo subitamente "faça sentido"?
O ponto alto do roteiro, o momento mais surpreendente, é também o mais falso. Falso, não: inverossímil. Será que existe um jovem assim tão compreensivo e sábio quanto o filho do dono do barco? Ele dá uma resposta surpreendente ao soldado que é resgatado por eles, mas tenta convencê-los a voltar à Inglaterra em vez de continuar a operação de resgate em apoio à Marinha.
Aliás, diga-se de passagem, essa participação dos civis também não fica suficientemente contextualizada no filme.
Por outro lado, o "inimigo" é apenas mostrado em forma de bombas, projéteis, torpedos. É um inimigo sem rosto, e não é por aí que Nolan desconstrói o clichê dos filmes de guerra.
Essa desconstrução acontece no ponto alto do roteiro, o momento mais surpreendente, já citado no parágrafo anterior. É que essa resenha tem a influência do filme. A montagem é meio irritante mesmo. Embora soe falso, funciona. Tal é a proeza de Nolan: criar uma situação em que um velejador de vinte anos mostra uma sensibilidade aterradora diante dos fatos desproporcionalmente viscerais.
Entretanto, é essa sequência que, embora inverossímil, surpreende o espectador e humaniza Dunkirk.
Só para encerrar e completar o meu raciocínio. Até na dedicatória Nolan não consegue ser simples: dedica o filme apenas a todas as pessoas cujo destino foi afetado direta ou indiretamente pelos eventos representados no filme. Ou seja, dedica o filme a todos os habitantes do planeta Terra!

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Thursday, July 27, 2017

O nevoeiro



The Mist é o tipo de filme essencial para as pessoas que têm uma queda por literatura fantástica. O diretor Frank Darabont (cuja filmografia é tão interessante quanto sucinta, compreendendo, além de O nevoeiro, Cine Majestic, À espera de um milagre, Um sonho de liberdade e Sepultado vivo) reuniu um elenco eficaz, sem grandes estrelas, aproveitou (para variar) um texto relativamente pouco conhecido de Stephen King, mudou o final para melhor, recrutou a maquiagem de Greg Nicotero e os efeitos em CG da CafeFX (a mesma empresa que trabalhou em O labirinto do fauno, de Guillermo del Toro), pinçou a dedo a hipnótica The host of the seraphim do Dead Can Dance, colocou tudo isso no liquidificador de suas tomadas bem boladas e... bingo! Eis que temos um dos filmes de suspense/terror/fantasia mais significativos do novo século. O filme já vai fazer 10 anos este ano, mas acaba de ser lançado um seriado que também se baseia na noveleta do mestre Stephen King.

Sunday, July 23, 2017

What I've Done



Nesta despedida

Não há sangue
Não há álibi
Pois extraí arrependimento
Da verdade contida
Em mil mentiras
Então deixe a misericórdia
Lavar 

O que eu fiz

Vou me enfrentar
Para eliminar o que me tornei
Me apagar
E deixar para trás o que eu fiz

Deixe pra lá
O que você pensava de mim
Enquanto eu limpo esta lousa
Com as mãos
Da incerteza
Então deixe a misericórdia
Lavar

O que eu fiz
Vou me enfrentar
Para eliminar o que me tornei
Me apagar
E deixar para trás o que eu fiz

Pelo o que eu fiz
Vou recomeçar
E seja lá qual dor surgir
Hoje isto termina:
Estou perdoando o que eu fiz

Vou me enfrentar
Para eliminar o que eu me tornei
Me apagar
E deixar para trás o que eu fiz

O que eu fiz

Perdoando o que eu fiz



In this farewell
There's no blood
There's no alibi
'Cause I've drawn regret
From the truth
Of a thousand lies
So let mercy come
And wash away

What I've done
I'll face myself
To cross out what I've become
Erase myself
And let go of what I've done

Put to rest
What you thought of me
While I clean this slate
With the hands
Of uncertainty
So let mercy come
And wash away

What I've done
I'll face myself
To cross out what I've become
Erase myself
And let go of what I've done

For what I've done
I'll start again
And whatever pain may come
Today this ends
I'm forgiving what I've done

I'll face myself
To cross out what I've become
Erase myself
And let go of what I've done

What I've done

Forgiving what I've done

Sunday, July 16, 2017

Paul McCartney: a biografia

Meu primogênito completa 10 anos em 9 de outubro.
Em 13 de outubro, ele estará no Estádio Beira-Rio lotado para ver seu primeiro show de rock.
Quem vai estar comandando as ações no palco será um jovial senhor de 75 anos de idade, que atende pelo singelo nome de Paul McCartney.
Ou apenas Paul, para os mais íntimos. No caso, para quem já leu a biografia escrita por Philip Norman, cuja edição brasileira tem a tradução de Rogério Galindo e Cláudio Carina.
Tive alguns receios ao longo da leitura desta obra.
Primeiro, o de não conseguir terminar o livro, afinal de contas, são 800 páginas.
Fiquei com medo de "perder o fôlego" e abandonar, ou perder o "momentum".
Na prática, fui deixando esse medo de lado e simplesmente degustando o texto.
Lá pelas tantas, o receio voltou.
Será que a leitura se tornaria menos interessante após o fim dos Beatles?
Mas, ufa, meu fôlego não arrefeceu, pois vieram as brigas, as pendengas judiciais, as desilusões com os amigos.
A estrutura da obra ajuda, com capítulos não muito longos. O estilo literário de Norman (bem respeitado pelos tradutores) é pragmático, objetivo; a escolha do material a ser incluído visa a fazer a história andar, não entra em detalhes desnecessários.
Norman demonstra entender do primordial: das músicas. Do imenso repertório dos Beatles e de Paul, comenta en passant a criação de algumas essenciais, como Yesterday, Hey Jude e Mull of Kintyre.

A impressão que temos é a de um biógrafo no auge de sua forma escrevendo sobre um biografado que continua lotando estádios e fazendo shows de mais de 3 horas de duração com um público empolgado.
Ainda assim, fiquei com receio de perder o interesse pelo livro após a morte de John Lennon.
Depois, após o término dos Wings. Depois, após a morte de Linda.
Mas não: todas as noites, antes de dormir, eu pegava o livro com a mesma vontade e ímpeto.
O derradeiro medo: o casamento com Heather Mills.
Havia lido um comentário criticando a biografia por se estender muito nesta parte relativamente curta da vida de Paul.
Eis que não concordei com a crítica, achei tudo bem equilibrado, e como foi um dos assuntos mais polêmicos da vida dele, é justo que o biógrafo se detenha um capítulo a mais para colocar os pingos nos ii, mas, como frisei, tudo sem perder o foco, mantendo o livro dentro de um planejamento mais amplo, sem fazer muitas revelações bombásticas, apenas britânica e cavalheirescamente descrevendo os fatos e uma vida.
Em outubro, Porto Alegre vai escrever mais uma singela página da vida deste grande músico e compositor. Mas que é gente como a gente.

Wednesday, July 12, 2017

Por um punhado de dólares versus Yojimbo

            


         Quem é mais rápido? O pistoleiro de aluguel de Por um punhado de dólares ou o samurai de Yojimbo?  
        Toshiro Mifune mata seis em um piscar de olhos, usando somente a espada. Clint Eastwood chega à cidade encomendando caixões ao coveiro.



            Em um duelo a pouca distância, Eastwood crivaria Mifune de balas, ou seria decapitado antes de sacar?


            À medida que vamos assistindo a Yojimbo, vamos nos recordando dos lances equivalentes em Por um punhado de dólares. A história é a estritamente a mesma.
            
      Um forasteiro chega a uma cidade onde duas famílias disputam o poder. Em Kurosawa, é o samurai sem destino e emprego, representado por Toshiro Mifune.



       Tem a mania de tirar o braço da manga e coçar a cabeça passando-o pela gola de seu quimono. É um cara sem escrúpulos, que não hesita em roer a corda, ou em fazer jogo duplo.

   Em Leone, é o pistoleiro vivido por Clint Eastwood. Barba por fazer, estilo cool e quieto, mas com os mesmos defeitos do personagem original.

         Apesar do mau caráter, os dois personagens desenvolvem certa empatia com o espectador. Afinal, estão, cada um a seu modo, desafiando quem tem, quem explora e humilha o povo. E os dois diretores tentam redimir as ações espúrias de seus protagonistas quando eles usam a força para reparar injustiças.
           



     
       As semelhanças são muitas em termos de fundamentos do roteiro, mas param por aí. Na forma e no estilo, Yojimbo e Por um punhado de dólares são obras completamente diferentes.
            
    Yojimbo é filmado em preto e branco, enquanto Por um punhado de dólares é a cores. 



    Yojimbo é uma sátira dramática, com cenas consistentes e fortes. Por um punhado de dólares ameniza a sátira e o drama, dá ênfase para o movimento e os tiroteios.
    
      Sérgio Leone, o mestre dos faroeste "spaghetti", traduziu para a linguagem ocidental o cinema denso de Akira Kurosawa.
     
   Dois pequenos clássicos, um de samurai, outro de faroeste. Dois diretores brilhantes. Dois atores carismáticos. Para mim, está empatado o duelo.

 

Monday, July 03, 2017

Meu malvado favorito 3

A Illumination é uma fábrica de filmes talentosos e também lucrativos. Com 7 filmes lançados (entre eles, Sing, quem canta seus males espanta e Pets, a vida secreta dos bichos), a subsidiária da Universal soma um investimento de cerca de 500 milhões de dólares (custo médio de 72 milhões de dólares por filme) com renda total de quase 5 bilhões de dólares, ou seja, um retorno 9 a 10 vezes superior ao capital investido.

Nesse contexto, em que cada novo lançamento supera o anterior, é difícil não tentar "esgotar o veio" ao máximo, ou seja, continuar aproveitando as personagens já aprovadas pelo público.

É o caso de Gru, suas filhinhas, sua esposa, seus ajudantes Minions (cujo filme "solo" é a 2ª maior bilheteria de animação da história, só perdendo para Frozen) e, agora, seu irmão gêmeo Dru, que entra para a galeria dos personagens da franquia em Meu malvado favorito 3.


O diretor Pierre Coffin, em vez da parceria com Chris Renaud, desta vez conta com a codireção de Kyle Balda e Eric Guillon. O roteiro continua a cargo de Cinco Paul e Ken Daurio, que, nesta entrevista, insinuam que a franquia não vai parar por aí.

Agora é fazer as apostas: será que Meu malvado favorito 3 vai bater o recorde de Frozen?

A julgar pelas sessões lotadas do Cine Arcoplex do Shopping Bella Cità, em Passo Fundo, a resposta é... talvez.