Friday, April 21, 2017

A garota no trem

Ao resenhar um filme estou tentando, em última análise, responder a uma pergunta simples: "Por que cargas d'água fui atraído para ver este filme?". O que me levou a estender a mão e pegar este filme na prateleira da locadora? Em outras palavras, o que me motivou a investir meu tempo e meu dinheiro neste ou naquele muitas vezes obscuro objeto de desejo cinéfilo? Ao cabo deste texto, espero que tenha conseguido desvendar o mistério.

Adaptado do romance homônimo escrito por Paula Hawkins, o filme A garota no trem, dirigido por Tate Taylor (o diretor nascido em 3 de junho que realizou o filme Histórias cruzadas), por seu ritmo pausado e por sua relativa falta de cenas de ação, não se enquadraria como "thriller", mas sim como o que se costumava rotular de "suspense psicológico".

Para isso contribui o fato de que um dos personagens secundários é um psicoterapeuta, alguém que, por conta de sua profissão, deixa as pessoas falarem e exorcizarem seus próprios demônios por meio do desabafo.

A garota no trem, o livro, tem três pontos de vista. Três mulheres muito diferentes contando a mesma história, cada uma sob seu olhar. O modo como cada uma enxerga a si e as outras é a chave para o sucesso do livro, um best-seller traduzido no Brasil por Simone Campos.

Erin Cressida Wilson, a roteirista, explica nos extras que era muito grande o desafio de valorizar o material literário, de transformar a linguagem literária em linguagem cinematográfica.

Os recursos de cada mídia são bastante diferentes, e cenas que funcionam em texto, não necessariamente vão funcionar no roteiro a ser filmado.

O livro, aos poucos, desvela, sob três prismas diferentes, uma intricada história de atração, obsessão e manipulação.

No filme, o foco se concentra em Rachel, a "garota no trem". Ela tenta se recuperar do fim de um casamento, que, em sua percepção, ela mesma colocou a perder, por conta de sua condição de alcoolista. O ex-marido, Tom Watson (Justin Theroux), agora está casado novamente, com uma filha pequena, e Rachel diariamente avista pela janela do trem o casarão onde o novo casal mora.

As outras duas mulheres principais da trama são a nova esposa Anna (Rebecca Ferguson) e Megan (Haley Bennet), contratada para cuidar da neném.

Embora casada com Scott (Luke Evans), Megan é o tipo de mulher que desperta os olhares de muitos homens.

O espectador já sabe de antemão: inevitavelmente, um crime vai acontecer. E também já desconfia que é o tipo de história em que cada um carrega um segredo perturbador.

Nisso é inevitável, também, o paralelo com outro suspense, menos soturno e mais bem definido em termos de gênero: A mão que balança o berço, de Curtis Hanson. No filme de Hanson, a violência explode quando uma mente pérfida e maquiavélica busca vingança de modo calculista.

Em A garota no trem, o suspense se constrói paulatinamente, em camadas, com ênfase na análise psicológica das personagens.

Mas eis que o texto está chegando ao fim, e, ao que me consta, ainda não consegui responder à pergunta que levantei no começo do texto. Meu interesse por histórias de suspense? Quem sabe...
Em busca da resposta, súbito um nome me vem à mente. Uma tênue e nebulosa suspeita. Mas não sou assim. Em geral, eu escolho filmes pelo diretor, e não pelo elenco. Mas Freud explica: "Emily Blunt".



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