Monday, December 11, 2017

Leif Erikson

LEIF ERIKSON  *

canção do álbum Turn On the Bright Lights

* 1000 d.C. explorador e aventureiro norueguês, descobriu e colonizou a Groenlândia


She says it helps with the lights out
Ela diz que luzes apagadas ajudam

Her rabid glow is like Braille to the night
Seu brilho violento  é como Braille para a noite

She swears I’m a slave to the details
Ela jura que eu sou um escravo dos detalhes

But if your life is such a big joke, why should I care
Mas se tua vida é uma piada tão grande, por que devo me importar

The clock is set for nine but you know you’re gonna make it eight
O despertador está regulado para as nove, mas você sabe que vai acordar às oito

So that you can take some time, teach each other to reciprocate
Para que vocês possam tirar um tempo, ensinar um ao outro a dar e receber

She feels that my sentimental side should be held with kid gloves
Ela sente que o meu lado sentimental deve ser manuseado com luvas de pelica

But she doesn’t know that I left my urge in the icebox
Mas ela não sabe que eu deixei meu ímpeto na geladeira

She swears I’m just prey to the female,
Ela garante que sou apenas uma presa para as fêmeas

Well then hook me up and throw me, baby cakes, cuz I like to get hooked
Bem então me enganche e me arremesse, querida, pois eu gosto de ser fisgado

The clock is set for nine but you know you’re gonna make it eight

All the people that you’ve loved they’re all bound to leave some keepsakes
Todas as pessoas que você amou estão destinadas a deixar algumas lembranças

I’ve been swinging all the time, think it’s time to learn your way
Tenho oscilado o tempo todo, acho que é hora de aprender o seu jeito

I picture you and me together in the jungle it will be ok
Imagino você e eu juntos na selva, vai ser legal

I’ll bring you when my lifeboat sails through the night
Vou lhe trazer quando meu barco salva-vidas velejar através da noite

That is supposing you don’t sleep tonight.
Isso supondo que você não durma hoje à noite.

It’s like learning a new language
É como aprender uma nova linguagem

Helps me catch up on my mime
Me ajuda a aprimorar a minha mímica

If you don’t bring up those lonely parts
Se você não trouxer aquelas partes solitárias

This could be a good time
Este poderia ser um momento agradável

You come here to me
Venha  aqui  para mim

We’ll pick up those lonely parts and set them down
Vamos pegar aquelas partes solitárias e vamos  resolvê-las

You come here to me
Venha até aqui para mim

She says brief things, her love’s a pony
Ela diz coisas breves, o amor dela é um pônei

My love’s subliminal
O meu amor é subliminar


 Tradução: Henrique Guerra
 Debates sobre o significado dos versos podem ser encontrados aqui.

STANLEY KRAMER: Acorrentados

Este é o segundo de uma série de três posts com os filmes de Stanley Kramer que venceram Oscars de Melhor Roteiro.


Acorrentados (The Defiant Ones, 1958) recebeu na versão dublada pela Herbert Richers o título alternativo de Destinos unidos.

Além de Melhor Roteiro, o filme abiscoitou também o Oscar de Melhor Fotografia em Preto & Branco. Os dois protagonistas, Tony Curtis na pele de Johnny 'Joker' 'Jackson e Sidney Poitier como Noah Cullen, foram indicados para Oscar de Melhor Ator, mas perderam para David Niven.

A indicação de Poitier marcou época por ser a primeira vez que um ator negro competiu por um Oscar. Ele acabaria vencendo mais tarde por No calor da noite, também vencedor de Melhor Filme.

O roteiro original foi um trabalho de quatro mãos assinado por Nedrick Young, que usava o pseudônimo Nathan E. Douglas e estava na lista de roteiristas banidos pela caça às bruxas anticomunista de Hollywood, e Harold Jacob Smith, que deu o acabamento ao texto.


Acorrentados começa com um caminhão de médio porte transportando presidiários numa rodovia mal sinalizada e sob uma chuva forte. Um dos presos está entoando o blues Long Gone, e um dos carcereiros da cabine manda ele calar a boca. Mas Cullen (Poitier) continua a cantar, só para ser chamado de 'nigger' por outro condenado, Johnny (Curtis). Detalhe: os dois estão unidos por uma forte corrente de 70 cm de comprimento, que conecta o pulso direito de Cullen com o pulso esquerdo de Johnny. A situação se transformaria numa briga não fosse o acidente que ocorre logo depois. Ninguém morre no acidente, mas a dupla acaba fugindo.


Os dois antagonistas nas próximas horas vão ter de atuar em equipe e coordenar esforços para escapar da polícia e dos cães que estão em seu encalço. São muitas as peripécias que a dupla vai enfrentar: a travessia de um rio de caudalosas e perigosas correntezas, o pulo num buraco de lama para se esconder e a difícil escalada posterior, a tentativa de roubar uma vila de operários e a ameaça de linchamento, a chegada a uma fazenda em que a dona da propriedade acaba vendo em Johnny uma tábua de salvação para fugir daquela vidinha.


O outro "núcleo" do filme acompanha o humanista xerife Muller (Theodore Bikel) e um grupo de policiais que buscam recapturar os fugitivos.

Curiosidade: o personagem de Curtis vive falando (seis vezes, para ser mais exato) ao longo do filme que gostaria de ser como um tal de Charlie Potatoes, expressão idiomática que significa uma pessoa rica e influente. Na adaptação para o português brasileiro, isso ficou diluído, pois a expressão, às vezes, simplesmente não é traduzida. Esse comentário não é uma crítica à tradução, apenas uma observação sobre os desafios enfrentados (não tem como colocar nota de rodapé na legenda do filme) e os recursos tradutórios adotados, entre eles, a omissão.

Omissão, porém, não é a praia de Stanley Kramer. Além de excelente condutor de elencos (atores e atrizes sob sua batuta recebem indicações a Oscar), o diretor Stanley Kramer sabia como poucos escolher roteiros funcionais e significativos. Também não se omitia: em vez disso, "colocava o dedo na ferida". Enfim, não era um sujeito que ficava à margem da discussão de problemas importantes.

A intolerância racial é um de seus temas recorrentes. Voltou a abordar esse tema, em tom mais leve, é claro, em Adivinhe quem vem para jantar (1967).



Aguardem o 3º e último post desta série, sobre Julgamento em Nuremberg, em que Stanley Kramer aborda outro tema espinhoso: o holocausto, merecendo outro Oscar de Melhor Roteiro.



Friday, December 08, 2017

Possessão


Aqui no RS temos um ditado: "se o cavalo passa encilhado...", ou seja, é bom aproveitar a oportunidade quando ela se descortina à sua frente. No ano em que o estadunidense Darren Aronofsky cometeu mother! e me inspirei a rever a obra-prima do belga Harry Kümel, nada mais apropriado do que falar sobre a controversa obra do polonês Andrzej Żuławski. Cada qual a seu modo peculiar, existe na obra desses três diretores um denominador comum: o inconformismo, a rebeldia, o ímpeto de causar um curto-circuito cerebral no espectador.

Possessão (1981), de Andrzej Żuławski, que deu a Isabelle Adjani a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes, é um exemplo dessa capacidade de chutar o balde e realizar coisas corajosas e imprevisíveis.

Por sinal, o polaco Andrzej 
Żuławski faleceu ano passado de câncer após realizar Cosmos, produzido em Portugal, quando preparava-se para filmar uma adaptação de "Os trabalhadores do mar" no arquipélago dos Açores.

Quatro anos antes, em 2012, uma retrospectiva de sua obra foi realizada nos EUA, com o título "Excesso histérico: descobrindo Andrzej Żuławski". Nesta entrevista, o diretor polonês comenta que abomina a palavra "histeria" para descrever seu trabalho, e prefere Zulawskienne, que, por sua vez, significa "over-the-top", ou seja, "extremely or excessively flamboyant or outrageous".

Com sua morte, muitas retrospectivas têm sido feitas mundo afora, inclusive no Brasil, com a mostra Cinema em êxtase, promovida pelo Cinesesc, que apresentou em outubro último sete filmes que dão uma ideia do trabalho avant-garde de Żuławski. As sinopses dos 7 filmes da mostra podem ser conferidas aqui. Depois, em novembro, foi a vez do Rio de Janeiro sediar uma retrospectiva da filmografia zulawskiana.

Este é o contexto ideal, pois, para falar aqui de Possessão, talvez o filme mais comentado de
Żuławski, e cujo monstro teve como criador o italiano Carlo Rambaldi, que trabalhou em filmes como King Kong, Contatos imediatos do terceiro grau e E.T



Certos filmes bem concebidos independem de serem interpretados, você assiste a eles e pronto. Dez minutos depois já os esquece. Outros, porém, ficam martelando na cabeça durante semanas, anos, décadas, suscitam debates ferrenhos, polarizações, perplexidades.

A ousadia da arte está na polissemia, na ambiguidade, na multiplicidade de caminhos interpretativos. Está em entregar um produto que já não pertence ao autor. As intenções do autor podem ter sido nobilíssimas, acontece que agora o seu rebento está sendo analisado e decupado: ele respira, pulsa e parece se rebelar contra o criador. Também tem suas intenções próprias. Por sua vez, na outra ponta, o receptor deixa de ser o receptor passivo e sente-se livre para coerentemente (ou não) interpretar o que leu ou viu. Nesses trabalhos artísticos, a interpretação "tricotômica" (intenções do diretor/autor, obra/filme e leitor/espectador) de que fala Umberto Eco é testada com o máximo vigor.




Assistir a Possessão me suscitou uma reação violenta de repulsa. Confesso que ainda não tive coragem de rever o filme, mas algo me diz que hoje o veria com outros olhos.

Redigi na época uma espécie de alerta irônico para que as pessoas abordassem o filme preparadas de antemão para não se decepcionar. Escrevi a resenha antes de começar a blogar no olhar cinéfilo e, não obstante seu pobre maniqueísmo, reconheço alguma qualidade nela, por isso, retrabalhei-a e vou publicá-la solenemente agora, com overdubs, ou seja, com acréscimos, e com cortes também.


Considero-me uma pessoa em evolução e não me sinto "refém" de minhas limitadas opiniões de outrora. Quero crer que o conciso verso do Radiohead "Fitter, happier, more productive", do O.K. Computer, me cairia bem: é isso que desejo ser e me tornar a cada novo dia. Uma das características deste blog, inclusive, é que vou mudando e, espero, melhorando os posts com o tempo.

Segue então minha duvidosa homenagem ao cinema transgressor de Żuławski, citado como um dos expoentes do cinema cult polonês nesta dissertação de Anna Draniewicz, excelente apanhado do cinema daquele país.



Possessão (texto de 2002, retrabalhado em 2017)


 Todos os personagens deste filme são possuídos. Sam Neill é o marido possuído pela desconfiança, pelo ciúme e pela dúvida. O que sua inconstante mulher (Isabelle Adjani) andou fazendo enquanto ele viajava a trabalho? Bob, o filho do casal, é possuído pelo medo de que os pais se separem, e respira uma atmosfera de brigas e neuroses. A personagem de Isabelle Adjani, por sua vez, se vê possuída por um desejo ardente e incontrolável enquanto o marido estava fora, o que a leva a ser literalmente possuída pelo amante Heinrich, um intelectual possuído pela vontade de possuir as mulheres alheias, que mora com a mãe, possuída pela mania de controlar a vida do filho. Temos também, para completar esse quadro de deixar qualquer um possesso, a amiga de Isabelle, possuída pela vontade de transar com o marido da amiga, e a professora de Bob, Helen, também interpretada por Isabelle Adjani, possuída pela vontade de tomar o lugar da outra, como mãe de Bob e esposa de Sam Neill.
            Se você pensa que isso é tudo, enganou-se. Há também os dois detetives gays que descobrem em sua investigação o mistério dessa possessão toda.
            Isabelle Adjani ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes, 1981, por seu papel duplo nesse filme do diretor alemão polonês Andrzej Żuławski. Cena realmente chocante é a cena do metrô. De deixar a endemoninhada de O Exorcista no chinelo. Convulsões, estertores, gemidos, fluidos corporais, babas, babas e mais babas, sangue, gritos, gritos e mais gritos, em uma sequência que exigiu muito preparo físico de Isabelle. Como a atormentada esposa de Sam Neill e a maternal professora, a primeira com seus originais olhos azuis, a segunda com olhos esverdeados pelas lentes de contato, a bela filha de pai argelino e mãe alemã é um dos possíveis motivos para alguém se motivar a conferir esta curiosidade do cinema fantástico.
          Um espectador ortodoxo poderá observar: Possessão (1981) não se resolve entre o drama, a ficção, o suspense; tenta se equilibrar pretensiosamente numa corda bamba sem rede, e quanto maior a altura, maior o tombo. Sob esse prisma crítico, Sam Neill faz o que pode com seu personagem, mas o roteiro não ajuda, é cheio de partes truncadas e descartáveis. Para isso podem ter contribuído, é claro, os famigerados cortes que os estúdios fazem na ânsia de tornar o filme mais palatável para “as grandes massas”.
         Sempre tive o propósito neste blog de não escrever para “malhar” explicitamente nenhum filme. Confesso que volta e meia cometo alguns deslizes e deixo de cumprir esse desiderato. Sim, eu confesso. Eu poderia paciente e placidamente passar sem me expressar sobre Possessão. Mas neste ano de 2017, em que os cinemas mostraram a bizarrice de mother!, não é de se admirar que eu tenha sido inapelavelmente atraído a escrever sobre Malpertuis, o cult dos cults e a lembrar de outros filmes que deixam uma plateia contrariada e desconcertada. É nessa vibe que me permito fazer a seguinte declaração bombástica. 

ALERTA DE SPOILER DANTESCO E BOMBÁSTICO: interessados acessar expansão do post abaixo.

 Aparecem os créditos finais, e a recompensa pela perseverança: você poderá, enfim, começar a convalescença de seu sequelado cérebro. O consolo disso tudo é que sempre existe vida após a dantesca morte de um relacionamento doentio  no caso, Andrzej Żuławski, após se divorciar da bela atriz polonesa Małgorzata Braunek, se casou com a linda atriz francesa Sophie Marceau.
E a vida cinéfila continua após decepções como Possessão, sem esquecer que uma boa prática cinéfila é procurar não fazer afirmações bombásticas e definitivas. Afinal de contas, muitas vezes caímos na tentação de “dar uma segunda chance” para pessoas que nos decepcionaram. Por que, não, dar uma nova chance a um filme ou a um diretor?
Ainda mais, se esse diretor é o sujeito que afirmou: “Agradar a maioria é o requisito do Planeta Cinema. De minha parte, não faço concessões aos espectadores, essas vítimas da vida, que pensam que um filme é feito apenas para seu bel-prazer, e que não sabem nada sobre sua própria existência”. 
Sirva o chapéu a quem servir. De minha parte, com o rabo entre as pernas, faço um último comentário para concluir o post: a relevância de uma obra pode ser julgada por sua fortuna crítica, ou seja, o acervo de críticas sobre ela. E a fortuna crítica sobre Żuławski é riquíssima. Por exemplo, um trabalho aprofundado sobre algumas das possibilidades de recepção e interpretação do filme pode ser encontrado em Monsters Within and Without: Reading Female Identity Through Monstrosity in Andrzej Żuławski’s Possession, de Nikola Grbavac.



ALERTA DE SPOILER DANTESCO E BOMBÁSTICO

Sunday, December 03, 2017

Malpertuis: o cult dos cults


Aconteceu naquela noite. Não foi nada planejado. Eu tinha 18 anos. Uma atração irresistível me arrastou àquele beco, depois àquela sala escura. Foi uma revelação à flor da pele. Uma experiência sensorial sem precedentes. Assisti a Malpertuis no Cineclube do Bexiga, em São Paulo.

O local é descrito assim na obra Na metrópole, textos de antropologia urbana: "Na rua Treze de Maio (...) foram abertos (...) espaços de experiências de vanguarda que fizeram desse bairro boêmio um local de encontro para artistas, intelectuais, poetas marginais, punks, freaks, junkies e roqueiros".

Embora eu não saiba precisar em qual(is) dessa(s) categoria(s) eu me enquadrava, acho que isso ajuda a explicar o efeito que o filme teve em meu cérebro imaturo, ávido por literatura fantástica, Poe e Maupassant. Aquela sessão despretensiosa, mas absolutamente vanguardista sob todos os prismas, longe de minha terra natal, tornou-se uma das mais emblemáticas de minha trajetória cinéfila.

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Anos depois, Malpertuis passou na capital gaúcha, e botei pilha numa galera para conferir a película. Resolvemos ir a pé e tivemos que descer correndo a Alberto Bins para chegar ao Cine Sesc a tempo. Nova revelação, desta vez com toques um pouco traumáticos.

Ao final da sessão, as opiniões se dividiram: eu, o fã incondicional, incomensuravelmente feliz por revisitar aquelas oníricas ruas medievais e ter renovado a experiência. Eu queria compartilhar a alegria de poder indicar um filme cult belga que dificilmente voltaria a entrar em cartaz. Eu queria compartilhar a paixão pelo cinema.

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Mas os meus amigos não curtiram muito, alguns torceram o nariz. Sem sombra de dúvida, não sentiram por Malpertuis um décimo da empolgação que eu senti. Por isso, lembro-me daquela ocasião com certa frustração. Não deveria. Afinal de contas, eles me acompanharam, e ainda se submeteram ao mico de sair correndo rua abaixo para não chegarmos atrasados. Mostraram a amizade deles por mim ao toparem a minha suspeita indicação. Ninguém era obrigado a gostar do filme com a mesma intensidade que eu havia gostado. Ninguém era obrigado a apreciar aquela bizarrice belga, falada nessa língua mais bizarra ainda, que é o holandês, que tem palavras parecidas com as do inglês, do alemão e até do português.

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A propósito, o roteiro baseia-se no livro homônimo, escrito pelo belga Jean Ray. O diretor Harry Kümel, cineasta belga nascido em 1940, é considerado por Jean Tulard um especialista em cinema fantástico. Temperou o vampirismo com pitadas de erotismo no filme Escravas do desejo, também chamado Filhas das trevas (1971). Segundo Tulard, Malpertuis (1971) foi malvisto pela crítica "injustamente".

Pois acabo de assistir a Malpertuis pela terceira vez, no aconchego do lar. Novamente o filme fez meus pelos se arrepiarem, em especial no desenlace. Consigo entender por que este filme me marcou tanto, consigo entender por que ele "me define", ou, para usar um termo da moda, "me representa" como cinéfilo. Sou o tipo de pessoa capaz de gostar de Malpertuis. Para o bem ou para o mal.

O blog This Island Rod traz um comentário pouco elogioso e repleto dos mais escandalosos spoilers sobre Malpertuis, estabelecendo um paralelo com Lisa e o diabo, filme de Mário Bava, também realizado em 1972. 

Por sua vez, o site 366 Weird Movies lista Malpertuis como um desses tais 366 filmes estranhos. A página sobre Malpertuis é bastante informativa e a avaliação menos rigorosa, comparando as versões lançadas pelo estúdio United Artists e a "director's cut".


Já o professor Valdir Baptista bem observa as citações de Malpertuis à obra do pintor surrealista belga René Magritte enquanto tenta decifrar os labirintos do filme à luz da semiótica e da literatura borgiana no artigo Os signos crescem em Malpertuis.


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Resultado de imagem para malpertuis movieO dvd traz um extra com depoimentos do diretor, da atriz Susan Hampshire, que interpretava 3 papéis no filme, e do diretor de fotografia Gerry Fisher. A entrevista deste último é particularmente esclarecedora sobre a força visual do filme. O diretor de fotografia é uma cabeça pensante que procurava harmonizar as suas próprias ideias com as ideias do diretor, que já eram bastante detalhadas e significativas. Já o diretor Kümel declara que trabalhar com Orson Welles foi muito difícil, o ator era teimoso e queria usar um roupão verde na cena em que a cor principal do cenário era vermelha. Por sua vez, a atriz Susan Hampshire comenta sobre a dor de usar lentes de contato que na época eram muito desajeitadas e pouco flexíveis.

Nessa pesquisa suscitada pela revisita fiquei me perguntando: por que cargas d'água um filme de 1972 só foi passar nos cinemas brasileiros no fim da década de 80? Uma pista para responder a isso é o prestígio da Mostra Internacional de SP, que em sua 9ª edição (1985), incluiu Malpertuis. Imagino que essa tenha sido a semente que disseminou o filme nas cinematecas e no circuito alternativo nos anos seguintes. 

Se, por um lado, Malpertuis, talvez por ser ousado demais, acabou condenando prematuramente a promissora carreira de Harry Kümel a uma espécie de ostracismo, por outro, acabou se tornando, por sua estupenda força visual e narrativa labiríntica, um dos marcos do cinema fantástico.

Sunday, November 26, 2017

STANLEY KRAMER: Adivinhe quem vem para jantar

Este é o primeiro de uma série de posts focalizando os três filmes de Stanley Kramer que venceram Oscar de Melhor Roteiro.


Poucos filmes têm uma estrutura tão simples e ao mesmo tempo tão funcional quanto Adivinhe quem vem para jantar (1967).

Stanley Kramer, o diretor mais discreto da face da Terra, e, ao mesmo tempo, econômico e eficaz, parte do primoroso roteiro de William Rose, coautor de Deu a louca no mundo, reúne um elenco fantástico e realiza um filme fundamental. Nenhum cinéfilo morrerá feliz se não tiver assistido a este filme pelo menos umas três vezes, na companhia de pessoas amadas.

Discreto, por quê? Ora, o filme é na verdade um teatro filmado. Com exceção das tomadas no aeroporto e aquela impagável sequência da sorveteria, não há externas. O cenário é basicamente o estúdio que imita a casa da família Drayton, e a câmera de Kramer faz movimentos simples, mas eficientes, aproveitando ao máximo o talento dos atores.



Econômico, por quê? A impressão que temos é que cada palavra neste roteiro foi escolhida a dedo, mas isso é sinal de rigorosa poda, de que o supérfluo ficou de fora e sobrou apenas a essência. Os créditos de abertura já colocam o espectador a par da situação. Isso é economia de tempo e de palavras.





Eficaz, por quê? Adivinhe quem vem para jantar é o protótipo da comédia dramática funcional, com temática provocante e ousada. Você assiste ao filme e consegue entender o comportamento humano, demasiadamente humano, de cada um dos personagens. Em termos de equilíbrio de leveza e conteúdo, é o paradigma da eficácia.

Além do Oscar de Melhor Roteiro Original, o filme permitiu a Katharine Hepburn, no papel de Christina Drayton, levar o segundo de seus quatro Oscars de Melhor Atriz.


Katharine, a estrela principal, passa o filme inteiro com lágrimas nos olhos. Sidney Poitier e Spencer Tracy entregam performances soberbas como sempre. Isabel Sanford, como a irreverente e impertinente Tillie, rouba algumas das cenas com sua verve cômica. Cecil Kellaway, que encarna o monsenhor Ryan, foi nominado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. A atriz que faz Mary Prentice, a mãe do dr. John Prentice, também tem um par de cenas importantes, nas quais brilhou o talento de Beah Richards, que inclusive recebeu indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel.

Uma curiosidade: durante a sessão, meu filho de 10 anos comentou que o Spencer Tracy é parecido com o protagonista da animação Up, da Pixar. Fui pesquisar e não é que o menino é mesmo um excelente observador? O diretor Pete Docter fala sobre isso neste artigo sobre a produção de Up.


Em suma, Adivinhe quem vem para jantar é como o sorvete duplo de amoras vermelhas que Matt Drayton degusta enquanto toma uma das decisões mais importantes de sua vida. Um sabor que alimenta e faz trabalhar o cérebro.



Saturday, November 25, 2017

Contatos imediatos do terceiro grau


O que define um "clássico" do cinema?
Ultimamente se convencionou chamar tudo que é antigo de "clássico".
O que abre margem para outra pergunta: o quão antigo precisa ser um filme para se tornar "clássico"?
Levando em conta apenas o quesito "antiguidade", talvez hoje em dia pudéssemos afirmar que filmes realizados na década de 70 já seriam clássicos.



E filmes da década de 80, será que já se tornaram clássicos? Bem, alguém poderia tranquilamente chamar Sociedade dos poetas mortos (1989) de filme clássico sobre a relação entre um professor revolucionário e seus alunos. Blade Runner (1982), um clássico da ficção. E Um lobisomem americano em Londres (1981), um clássico do horror. Pensando bem, talvez tenhamos chegado ao ponto em que os filmes da década de 80 possam ser chamados assim.

O que nos leva a pensar com propriedade: será que simplesmente a década em que o filme foi realizado define se ele é ou não um clássico?
Em tese, não.
Na verdade, o que está acontecendo hoje em dia é a banalização do termo "clássico".
Qualquer filme relativamente importante e relativamente antigo corre o risco de ser rotulado assim.
Como eu definiria um clássico, então? 



Clássico do primeiro grau é o filme que resiste ao tempo, que envelopa tudo que o cinema tem de excelência, desde o roteiro, a direção, o elenco, as atuações, os efeitos especiais, a maquiagem, o figurino, a trilha sonora e os demais aspectos da produção.

Clássico do segundo grau preenche os requisitos acima e além disso fez muito sucesso na época em que foi lançado. Muitas vezes, cria uma legião de fãs incondicionais. Sim, todo bom clássico também pode ser cult. 

Clássico do terceiro grau é a experiência cinéfila extrema. É o filme cujas cenas permanecem na retina. Claro que isso é apenas outro clichê ou modo de falar. Para ser clássico, as cenas têm mesmo é de permanecer na memória de longo prazo, não apenas na memória de trabalho, e voltar à retina quando pensarmos no filme. E quando revemos aquelas cenas, pensamos: esta é uma cena clássica do cinema.



Contatos imediatos do terceiro grau tem várias cenas desse gabarito.

Uma curiosidade: nos extras, Spielberg conta que para o papel principal convidou ninguém menos que Steve McQueen, que tomou umas bebidas com ele, mas no final o experiente ator recusou o papel, alegando que não conseguiria verter lágrimas diante das câmeras, coisa que nunca fizera em sua carreira, e o roteiro assim exigia.
Richard Dreyfuss, que já havia trabalhado com Spielberg em Tubarão, tanto insistiu que acabou ganhando o papel.




Thursday, November 23, 2017

SNOW STEAM IRON



SNOW STEAM IRON é o título do curta-metragem de 4 minutos realizado por Zack Snyder tendo como câmera única um iPhone.

Os interessados podem assistir ao filme aqui.

Está me parecendo que vai acontecer algo parecido com o que aconteceu com Machete de Robert Rodriguez, que de mero trailer se tornou uma franquia.

A forte e bela personagem criada por Snyder tem potencial de protagonizar um longa-metragem.





Monday, November 20, 2017

Liga da Justiça

Zack Snyder recebeu o crédito integral pela direção de Liga da Justiça. O roteirista e diretor Joss Whedon pegou as rédeas do projeto com o bonde andando e filmou algumas cenas, mas ganhou apenas o crédito de corroteirista. O estúdio vem sendo criticado por essa decisão. Acho que foi uma decisão pragmática, por dois motivos: Snyder filmou, digamos, 90% do material, concebeu todas as tomadas principais e as filmou com muito talento e também "tem mais nome" que o substituto. A César o que é de César, detratam os críticos de plantão, exigindo o crédito para Whedon.


Abre parênteses. Esse é o tipo de discussão que só os nossos intrigantes tempos modernos permitem. A obsessão com o politicamente correto está tornando irrespirável o mundinho das redes sociais. As pessoas não abrem mais as janelas e lançam o olhar para o horizonte. O índice de miopia está aumentando. Os músculos do sistema ocular especializados para a visão de longa distância estão atrofiando. Resultado: a visão panorâmica perde a força e a pessoa precisa de óculos precocemente. Porém, mais perigoso ainda que atrofiar a visão, é atrofiar o cérebro. Fecha parênteses.


Assistir a Liga da Justiça comprova que o estúdio estava certo. Está na cara que o filme é dirigido por Snyder, diretor que deixa sua marca autoral nos projetos em que atua. O roteiro tem dois polos principais: trazer Super-Homem de volta e combater o Lobo da Estepe. De quebra, apresenta o background de The Flash e do Aquaman, dá um destaque merecido à Mulher Maravilha e um bom humor que faltava ao Batman.

Mas o leitor incauto poderá indagar: como assim, marca autoral em filme de super-herói? Pois é, a afirmação pode soar estranha, mas isso é possível. No caso da direção de cinema, não é necessário que o diretor seja também o roteirista e o autor da história para imprimir sua marca. Como você aborda o material é que define a autoria. O estilo é o homem, já disse Buffon, e o diretor de cinema que tem um estilo, ou uma marca registrada, imprime isso em todos os seus filmes.

E qual é a marca registrada de Zack Snyder? Não vou ser eu o primeiro a tentar elencar isso. Basta analisar o currículo do cidadão e procurar elementos que unem as obras.
Este artigo do site cinelinx cita nada menos que 5 marcas registradas do diretor: linha do tempo intensificada, zoom de ação, soco na cara em câmera lenta, partículas em movimento e colagem na introdução. São detalhes técnicos que permeiam seus filmes.


Até mesmo os patrulhadores de plantão, ou seja, os piores e mais radicais detratores de Snyder, que o acusam de ser "direitista, misógino, racista e homofóbico" reconhecem que ele é um auteur, "para o bem ou para o mal". 

Eu que ingenuamente não imagino me enquadrar nesses rótulos percebo outro elemento unificador: admiro cada um de seus filmes. Sou apenas um apaixonado por cinema, e, dos diretores das novas gerações, hoje em dia o cinema de Snyder se destaca, junto com o de Paul Thomas Anderson, Sofia Coppola, Tom Hooper, Darren Aronofsky, Wes Anderson e outros. É por esses nomes que eu discordo da sombria afirmação de Thomas Sotinel em seu perfil sobre Almodóvar, de que hoje não existiriam mais diretores auteurs.

O diretor, que se afastou da pós-produção de Liga da Justiça para se recuperar do suicídio da filha, recentemente realizou um curta-metragem de baixo orçamento, conforme informou em seu Twitter. A página também traz alguns compartilhamentos dos bastidores da filmagem de Liga da Justiça. Sem dúvida, ele é o diretor do filme, com todos os méritos.